sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Prova Brasil e o ensino de língua materna: algumas questões

Tem-se assistido, nas últimas duas décadas, à ascensão das avaliações sistêmicas no panorama educacional brasileiro. O caso de Minas Gerais chama a atenção pelo fato de o Estado não apenas ter sido pioneiro na criação de um sistema próprio de avaliação, como também ostentar, atualmente, uma sobreposição, a meu ver, de processos avaliativos nos sistemas. Haja vista que os alunos das redes municipais de Belo Horizonte e Contagem, por exemplo, além de serem submetidos às avaliações do governo federal, via PROVA BRASIL, fazem, ainda, o SIMAVE, do governo estadual, e mais as avaliações aplicadas por sistemas próprios, criados pelos municípios. Não é necessário um esforço mental muito grande para se perceber a força com que vem se consolidando a avaliação no cenário educacional. Todavia, algumas perguntas não têm sido feitas, ou melhor, a administração pública não tem criado espaços e tempos para que essas perguntas sejam feitas pelos principais envolvidos no processo, quais sejam, famílias e professores (comunidade escolar, enfim).
Não padece dúvida de que todo setor deve ter um sistema que gere informações a fim de se pensar políticas públicas de qualidade, no caso, políticas educacionais. Contudo, o que se tem assistido é a um completo desvario em torno dessas questões, como direitos adquiridos pelos profissionais da educação serem revistos a partir de resultados de avaliações padronizadas. Outro fator muito problemático e que se não for colocado em debate pode levar a um "engessamento" do currículo é a "opção" por tomar os "descritores" da Prova Brasil ou do Simave como fio condutor à guisa de se elaborar currículos ou entender o IDEB como um indicador de qualidade de educação.
No primeiro caso, e me refiro, particularmente, ao ensino de língua portuguesa, é bastante questionável tomar uma avaliação como a Prova Brasil como propulsora de um currículo de língua materna, simplesmente, porque a PB mede, apenas, as habilidades de LEITURA, não de ESCRITA.
O ensino de língua portuguesa não pode desenvolver apenas habilidades de leitura e interpretação; há, também, a escrita que não é contemplada. Não podemos nos esquecer que ela demanda habilidades diferentes daquelas de leitura. Não é raro, por exemplo, encontrarmos pessoas que leem, interpretam muito bem e que, entretanto, escrevem mal. Ou seja, uma coisa não leva, necessariamente, a outra. E mesmo quando se fala em leitura, há inúmeras habilidades que ficam de fora dos descritores, como por exemplo, aquelas que perpassam o discurso literário (intertextualidade, metalinguagem, linguagem metafórica) e que, desde a tenra idade, devem ser trabalhadas com os alunos para que desenvolvam a sensibilidade estética e o gosto mesmo pela literatura. Portanto, "comprar" o discurso dos testes padronizados como sinônimo de qualidade da educação, é incorrer, a meu ver, no equívoco de subestimar aspectos importantes, intimamente ligados à educação, como o contexto sócioeconômico e cultural dos alunos, especialmente, aqueles fortemente impactados pela ausência de políticas sérias e sistemáticas voltadas para eles.

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